Meu Deus, me dê a coragem
Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.
Clarice Lispector.
Sem Dramas
Hoje, quarta-feira, parei para ler a Revista encartada no jornal que assino. Me deparei com uma entrevista do ator Rodolfo Bottino. Rodolfo é portador do virus HIV, curou um cancêr de pulmão, superou uma sindrome do pânico e uma aneroxia nervosa que o fez chegar a 41 quilos.
Assim ele disse: “Ninguém falou que viver é fácil. Todo dia pode ter uma porrada. Mas também pode ter uma realização. Nenhum HIV, câncer, hepatite ou diabete impede essa realização diária. O que impede é a cuca.”
E como bem disse a reportagem, ele descobriu há tempos que a única maneira de combater a morte era vivendo a vida. Sem dramas.
Sem dramas. De preferência sorrindo e realizando!
Um pulo para o infinito
“Neste mundo não há saída: há os que assistem, entendiados, ao tempo passar da janela, e há os afotios, que agarram a vida pelos colarinhos”
(Maitê Proença)
Portanto, não há um meio termo. E também faço parte da segunda corrente de vida… De viver intensamente cada momento de alegria, de dor, de prazer, de furor, de cicatrizes e feridas saradas com merthiolate – daqueles que ardia muito e que causava pânico só de ouvir o nome. Talvez seja por isso não ser dada a lágrimas, ou lamentações.
A vida é assim, um pulo para o infinito. E para dar esse pulo não é necessário abrir mão do que se conquistou (familia, filhos, trabalho, casamento); é necessário apenas abrir-se e “sorver a essência das coisas”.
Aceitação como forma de mudança…
“A aceitação da dor é o primeiro passo para suportá-la, caso contrário, o pessimismo, a impaciência e a intolerância, poderá transformá-la num fardo além de suas forças.”
(Ivan Teorilang)
Como pedir para que alguém aceite a sua dor, se a sua vontade é socar paredes e quebrar vidraças com a pouca força que lhe resta nas mãos?
Posso escrever a coisa mais piegas e banal do mundo, mas se todos soubessêmos a força que tem o pensamento – acho que agiriamos mais e reclamariamos menos. Se você recebe paulada em cima de paulada – tenta consertar o que está dando errado - e mesmo assim continua recebendo mais e mais pauladas, é porque você não fez nada para mudar a situação deste a primeira paulada recebida. É como se estivesse insistindo no caminho errado. E daqui a pouco, vem mais e mais pauladas.
Essa semana conheci uma menina na seguinte situação: Classe média, fala três idiomas, morou fora do pais algumas vezes, casou, separou, casou novamente, separou novamente. Aqui no Brasil, ralou muito, casou novamente, ficou doente, fez uma histerectomia, o marido estuprou-a enquanto se restabelecia da cirurgia - o estupro estourou seus pontos internos - ficou na CTI alguns dias. Liberada do hospital, pegou os filhos e fugiu do marido com a roupa do corpo e foi para a casa da mãe; ainda se convalecendo a mãe expulsou-a de casa (a mãe tem problemas psiquiatricos), ela pegou os três filhos e foi dormir dentro do seu carro até encontrar um cantinho pra ficar. E mesmo com todas as condições desfavoráveis, inclusive de violência, ela era só sorrisos e com um brilho que eu jamais conseguiria descrever. Aos pouquinhos a vida dela está entrando nos eixos. Ela me disse que conseguiu digerir tudo o que aconteceu com ela, mas com força suficiente para não mais aceitar que essas coisas aconteçam novamente na vida dela.
Não adianta reclamar, lamentar, filosofar em cima de erros constantemente repetidos ou das pauladas constatemente recebidas. Tem que agir.
Solidão
No fundo, sempre estamos sós…de alguma forma somos sós mesmo fazendo parte de um todo. Não somos parte, nem metade. Nem inteiro, nem completos. Sempre estamos sós…de alguma forma sós em busca de nossos caminhos.
Solidão – Alceu Valença
A solidão é fera, a solidão devora.
É amiga das horas prima irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos,
Causando um descompasso no meu coração.
A solidão é fera, a solidão devora.
É amiga das horas prima irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos,
Causando um descompasso no meu coração.
A solidão é fera,
É amiga das horas,
É prima-irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos
Causando um descompasso no meu coração.
A solidão dos astros;
A solidão da lua;
A solidão da noite;
A solidão da rua.
(Alceu Valença)
Abraçando o Sol....

Nem virus e nem máquina. Quero o sol e a tempestade.
Casa de Arvore
Cidadão de Papelão
O cara que catava papelão pediu
À margem de toda candura
Um cara, um papo, um sopapo, um papelão
Cria a dor, cria e atura
O cara que catava papelão pediu
Se reciclando vai, se vai
À margem de toda candura
Homem de pedra, de pó, de pé no chão
Não habita, se habitua
(Teatro Mágico)
Dia desses, ao passar por uma rua do subúrbio, observei um cara. Era apenas um cara, já de tenra idade, entrando dentro da árvore.
A frondosa árvore, de muitos galhos, de incontáveis troncos que surgiam do chão se entrelaçando uns nos outros e formando àquela frondosa e linda árvore numa esquina qualquer de um subúrbio qualquer. Ali ele não era cidadão, mas mantinha residência e domicílio fixos.
"Sr. Ninguém, brasileiro, aparentemente solteiro, não portador de identidade e cpf, residente e domiciliado na cidade do Rio de Janeiro, à rua tal, na arvore tal, sem numero"
Era a moradia dele...com papel, papelão, alguns panos, muitos galhos e frondosos troncos.
- A árvore o protege da chuva. Disse minha mãe.
Talvez, apenas agora, com o passar dos anos, esteja realizando o seu sonho de criança - construir sua casa na árvore.
Do jeito que está

Na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira.
(Goethe)
Brigando com o mundo
"Um ancião índio norte-americano, certa vez, descreveu seus conflitos internos da seguinte maneira:
- Dentro de mim há dois cachorros. Um deles é cruel e mau. O outro é muito bom, e eles estão sempre brigando.
Quando lhe perguntaram qual cachorro ganhava a briga, o ancião parou, refletiu e respondeu:
- Aquele que eu alimento mais frequentemente."
Paulo Coelho
Não gosto da leitura que me reporta ao pensar subjetivo de Paulo Coelho, mas essa citação dele me fez recordar uma ex-colega que alimentava seu pitbull interior, quase que diariamente.
Cada um com seu cada um, mas não saberia viver assim, eternamente em guerra com o mundo. Tanto não saberia que me despedi sem dizer adeus. E como é bom ter momentos de paz.
Era daquelas pessoas que guerreavam com tudo e todos o tempo todo. Já acordava arrumando encrenca com o lixeiro, com o vizinho, com a operadora do celular, com o filho, com a mãe, com o marido, com o novo amante. Carregava nas costas as indignações contra o mundo.
Na face a arrogância de todo advogado. Nas mãos e na ponta da lingua o CPDC, a CRFB e o CPP e as mais ferinas defesas. Era um processo por mês, quiçá por semana contra o mundo que a cercava. Vivia em face de... Os conciliadores dos Juizados Especiais Civis e Criminais já a conheciam. A Delegacia local também. Mas, ultimamente, só vivia reclamando de suas causas perdidas, inclusive as suas próprias causas existenciais. A felicidade de outrem a incomodava. Se alguém sorria demais deveria ser louco ou mentia o tempo todo. Vivia a vida deduzindo isso e deduzindo àquilo. Era incapaz de rir de si mesma, mas sabia sorrir para si mesma!
Espelho, espelho meu...haverá alguém mais louca e mais solitária do que eu? - Um dia ela irá se fazer essa pergunta. Sentenciou um dos meus amigos que a tempos não reencontrava por ai numa festa qualquer.
Triste sentença dada por esse meu amigo. Talvez, ele esteja certo - ou não.
Apesar de...
No meio da dificuldade encontra-se a oportunidade.
Albert Einstein
Impossível, é Deus pecar! As vezes é necessário arrumarmos as malas, partir para poder recomeçarmos com força. E muitas vezes, essa força não está nas raizes que nos prendem. É um mal necessário, porém passageiro. Por isso que pouco tenho pena de neuroses alheias. Sempre vi gente neurótica como um grande covarde, incapaz de grandes mudanças pessoais. Àquelas pessoas que mentem para si próprias e ainda brindam o Reveillon que será igual ao Reveillon seguinte, como foi o Reveillon passado. E necas de mudanças, mas sim, eternas comiserações pessoais. O eterno "dó..dó...dó...tenham dó de mim".
Recentemente escrevi um texto no meu outro blog que falava sobre os homens que choravam por passarem dificuldades e não conseguirem salvar suas famílias de privações. Falei do amor que move alguns pais por suas famílias e de suas capacidades de transformações e anulações por causa desse amor. E quão triste é sentir-se derrotado.
Me basiei em histórias veridicas, me basiei em histórias de familia - da minha família, me basiei num filme que conta a história real de um homem e seu filho. O filme é: Em Busca da Felicidade. Seguramente um dos melhores filmes que já assisti. E que mostra a possibilidade de uma mudança, quando se quer, apesar de...E quem assistiu ao filme, é capaz de se lembrar do respiro de felicidade ao final.
Todos temos esse poder de transformação, quando temos por quem lutar...quando temos um objetivo além de nossos umbigos. E ter por quem lutar, é o que move o verdadeiro amor. E a vitoria não tardará, apesar de...







